domingo, 22 de maio de 2016

A vida perfeita o que deve ser?

Ela era tudo que um dia sonhou ser.
Quando criança ouvia aos que lhe falavam, estude que verá.
Estudou de tudo que teve acesso, era sempre a melhor de sua turma, tirava as melhores notas, passava cola pra turma toda, achava que todos deviam ter chances iguais, mesmo não sendo tão bons em certas coisas. Foi levando a vida ou a vida a levava, mal sabia onde o universo a guiava.
Passou a escola e seguiu sua vida, sempre tentando acompanhar tudo, ia pra faculdade, assistia as aulas, lia os livros, fazia resenhas, tinha noites mal dormidas mas não abalava, se sentia forte como uma rocha, andando nos meios escabrosos, bebia, fumava, conversava, expandia sua mente.
Sempre certinha, andava na linha, queria o que todos queriam uma vida estável.
Então mais uma vez estudou, passou no melhor concurso que poderia, seus pais não poderiam estar mais felizes, uma filha graduada, no melhor concurso!
Então passaram-se os anos, uma vida estável já não preenchia, a vida estava rotineira e não fazia sentido.
Arrumou um namorado, parecia o cara certo, fazia seus gosto e aceitava suas manias.
Casou como todos querem, um festão regato a tudo de bom, ela não fazia gosto disso, mas já que podia porque não?!
A melhor festa do ano alguns diriam, era memorável, afinal depois que se casa qual festa a de ter melhor?!
Sentia-se feliz, seus dias divididos, já não era só um, tinha companhia, pras suas risadas e pras suas tristezas, suas explanações acerca do mundo, divagavam sobre temas infinitos, suas conversas pareciam não ter fim, era tudo que sempre desejava ter, lhe parecia a vida perfeita.
Vieram os filhos, o primeiro abrindo sua mente, lhe trazendo uma nova maneira de ver a vida, expandindo todo seu conhecimento do universo, lhe mostrando toda a antropologia do ser, viu a linguagem se formar, as primeiras palavras aparecerem, as primeiras conversas, as primeiras histórias, não havia nada mais feliz ao qual poderia refletir.
Seu marido não acompanhava, não entendia suas necessidades, achava que ser só mãe supria toda a vida, sentia falta da mulher que ele conhecia, ao qual tinha todo o tempo pra se dedicar a ele, esse tempo já não tinha, era uma outra vida e ele não entendia.
Seus dias eram contados os minutos, tinha tantas tarefas a fazer, entre cuidar da casa, atenção aos filhos que já eram dois, cuidar de roupa, comida, lancheiras, mochilas, limpar a casa, trocar fraldas, ir trabalhar, deixar filho em lugar seguro, ter segundos de paz. Uma verdadeira vida corrida, segundos de paz. Largou todos seus pontos de equilíbrio pelo cansaço, suas meditações e seus Hobbies, agora eram devaneios de segundos, uma vida pela metade. Sentia-se sempre cansada, com um peso nas costas, sentia-se sozinha, aquele marido amável já não entendia o que lhe acontecia, ele achava que fazia demais, mas nessa altura ela já não tinha tempo pra pensar no que lhe acontecia, nem ela entendia. Cansada, cansada, eu estou cansada.
Passavam se dias e anos, num piscar de olhos, o amor pelos filhos era seu ponto de esperança, mas só isso não bastava pra suprir seu imenso vazio, seus dias correndo, ela já não sentia o quanto lhe escapavam aos olhos.
Tinha a vida perfeita aos olhos de todos, uma família linda era o que diziam, dinheiro, casa, comida, nada lhe faltava, a não ser seu imenso vazio dentro de si. Os filhos foram crescendo, ela já tinha um certo tempo, então foi em busca de descobrir, algo que suprisse o vazio do seu ser.
Claro, sua espiritualidade, o ponto inicial de todo ser, então foi em busca de Jesus, o ser mais admirável de todos, algo nele deve ter, ela pensava, e começou a frequentar igrejas, primeiro a evangélica.
Seguindo os cultos, orando como todos, enxergou a manipulação, a elucidação dos demônios, esses eram mais falados que ao qual diziam seguir, Jesus, esse mencionado só pra expulsar os demônios, o resto era julgar os seres, menosprezar todos os sentimentos alheios, transformar os sentimentos dos outros em demônios, aos quais precisam ser expulsos, não lhe importavam os sentimentos dos outros, apenas gritar e gritar, como se todo o resto fosse sumir. Gritar lhe fazia bem, como faz a todos, mas julgar, isso não, isso a destruía, não conseguia entender como algo poderia ser melhor que outro, sendo todos humanos e simplesmente seres viventes sobre suas teorias.
Buscou a igreja católica, já que essa lhe parecia mais sóbria sobre as palavras de Jesus, frequentou as missas, e parecia tudo tão bonito, e tão repetitivo, lavagem cerebral na certa, era tudo igual. Isso não a preenchia. Por mais bonito que lhe parecesse, era apenas mais uma rotina do que algo que lhe desse luz.
Foi então ao budismo, e tinha todo um vigor, meditações transcendentes, lhe trazia uma paz interior, e por algum tempo funcionou, mas existia um cotiano, o seu, ao qual não podia fugir, e todos os dias lhe pareciam igual, tentando se firmar na paciência de buda, mesmo assim não conseguia.
As cobranças do cotidiano, a vida corrida, as expectativas não cumpridas. Parecia um inferno. Eram tantas perguntas pra tão poucas respostas. Sua vida parecia desmoronar numa estrutura tão sólida, e pra todos era tudo tão lindo, mas não era o que sentia, pra si as paredes de mármore se derretiam suas suas vistas, era um ciclo infinito da mesma coisa que dói-a.
Sobre uma noite, um jantar, seus filhos já crescidos, divagavam sobre causas perdidas, seu marido enaltecido sobre a perda do time de futebol, ela exacerbada de tanta ignorância, se levanta! Aquela mulher sempre pacata dentro de casa, sólida como uma rocha, aparentava ser a mais paciente, a mais acomodada acerca da vida que lhe segue. Se levanta repentinamente. E lhes diz: - Vocês não sabem de nada, meros hipócritas da vida, vivem esse cotidiano de merda, acomodados com o prato que comem, com o sistema predador que vos cercam, uma vida de castração, presos dentro da casa que acham seguro, com medos que nem sabem o que são. Algum dia se perguntam sobre o que sentem? Já não sabem o que sentem.
Seu marido estarrecido sobre o que acabara de ver, pega o celular e liga pra uma ambulância, já notando a estranheza de sua mulher, já parecia sabe o que estava por vir. A ambulância estava a caminho.
E ela gritava mais: - Não sabem de nada, não sentem seus vazios, não sentem a humanidade a sua volta, não se importam com suas dores, já não choram mais ao ver crianças pedindo na rua, já não sentem as guerras pois não estão na sua porta. Meros hipócritas!
A ambulância chega! Uma lagrima escorre de seu olho, ao saber da traição sem tamanho que haviam feito com você, talvez de uma vida toda, de um universo inteiro conspirando com sua dor, da falta de entendimento, da falta de cumplicidade, nada disso mais importava quando a agarraram em seus berros, aplicaram um sossega leão, e nenhum pensamento mais lhe passava a mente, seus braços presos, seus olhos se fecharam, já não havia mais nenhum pensamento ali...

a retomada

Era uma ser, ínfimo em sua existência
Apenas contava estórias em sua mente
Sempre descrente, se via em uma vida,
Sem precedentes, Blasfêmia do universo
Talvez seria, não tinha eira nem beira
Vagava pelos submundos da mente.

Seus sonhos lhe contavam
Sua vida lhe passava
As mesmas estórias vividas
As mesmas estórias lidas.

Aquele sonhador, sonhando o sonho dos loucos
Vivendo a vida de pouco.

Seria ele um nada, ou seria ele tudo,
A linha tênue que vagava,
Seguindo do nada a tudo, e tão pouco.
Era ele um ser elucidado pelo destino,
Sentia a ira dos deuses
Comendo sobre seu couro,
Destronando seu ouro.

Lindos aqueles que clamam pelo horror
Os dias passados, os dias virão
Esperava ele sentado
A luz da escuridão.